About

A autora que vos escreve, Maria Luiza M Pedrosa, dirigindo um programa de notícias estudantil em fevereiro de 2026.

English Version Bellow

Além de um projeto final, este trabalho é inspirado nas minhas próprias experiências, crescendo cercada por seres humanos maravilhosos, com todos os corpos e condições, que em nenhum momento deixaram de impactar o mundo ao seu redor da melhor forma possível. Há três histórias que gostaria de compartilhar e que me guiaram em cada palavra escrita neste artigo:

Minha avó, Marlene Marques, viveu por mais de 30 anos com visão extremamente reduzida em decorrência da diabetes, mas ainda assim criou cinco filhos enquanto trabalhava e cuidava da casa. Uma vez, perguntei a ela o que ela via; ela parou de mexer uma panela e me disse: “Eu vejo preto, é muito tranquilo, mas é tudo apenas escuro”, e continuou preparando o almoço. Ainda assim, ela não reclamou em nenhum momento enquanto envelhecia e ajudava a criar seus quatro netos. Mesmo nunca tendo tido a chance de ver como éramos, nossos rostos enquanto crescíamos ou as muitas conquistas que nos foram dadas, não há absolutamente nenhuma forma de ela não ter enxergado diretamente nossas almas. Ela é profundamente sentida todos os dias, embora eu a veja em todos os lugares por onde passo.

Frequentemente vejo canecas com a frase “MELHOR MÃE DO MUNDO”, mas nenhuma delas já vem com o rosto da minha mãe impresso. Sei que é clichê, mas é a verdade. Minha querida mãe, que criou dois filhos enquanto trabalhava em vários empregos e enfrentava uma doença que a levava ao centro cirúrgico uma vez por mês. Nada jamais conseguiu impedir minha mãe de viver; ela certa vez trabalhou 12 horas cozinhando no calor do verão apenas uma semana após um procedimento, do qual ainda carregava todos os pontos como prova. Como todas as mães, a minha morreria por nós, mas a maior bênção que já recebi é o fato de que ela lutou as batalhas mais difíceis da vida para viver mais um dia conosco, mesmo quando lhe disseram que não teria sequer mais uma hora. Mais de 50 cirurgias e duas mudanças internacionais pelo mundo depois, seguimos celebrando mais um ano dos quatro juntos. Não há nada melhor do que isso.

O mundo parecia parar toda vez que meu avô, Lorenzo Montejano, abria a boca. Sempre trabalhador e sonhador, ele se mudou para o Brasil sem falar português e trabalhou por anos a fio até que um acidente lhe tirou uma das pernas. Embora tenha ficado em cadeira de rodas até seus últimos dias, nada jamais cortou suas asas, pois ele sempre esteve presente em nossas vidas. Muitas vezes me pergunto o que ele me diria se ainda estivesse aqui por apenas uma hora, como seria sua voz. Ele criou duas das pessoas mais importantes da minha vida, minha mãe e meu irmão, e toda vez que vejo seus rostos ou seus sorrisos, imediatamente me lembro dele.

Tudo isso para dizer que, em nenhum momento, a vida os impediu de tratar todos com absoluta gentileza, mesmo nos seus piores dias. Uma coisa é certa: eles nunca quiseram piedade de ninguém; tudo o que queriam era um mundo mais fácil para todos.

In English

Beyond a final project, this work is inspired by my own experiences growing up surrounded by wonderful humans with all bodies and conditions that never once stopped them from impacting the world around them in the best way. There are three stories I’d like to share that particularly guided me through every word written in this article:

My grandmother, Marlene Marques, lived for over 30 years with extremely low vision as a result of diabetes, yet she raised five children while working and taking care of their home. Once I asked her what she saw, she stopped stirring a pot and told me, “I see black, it’s very peaceful, but it’s all just dark”, and continued cooking lunch. Still, she did not complain once as she grew old and helped raise her four grandchildren. Even though she never did get the chance to see how we looked like, our faces as we grew old ourselves or the many accomplishments graced upon us there is absolutely no way she didnt saw straight through our souls. She is dearly missed every single day, though I see her everywhere I go.

Often I see mugs that say “BEST MOM IN THE WORLD”, yet none of them have my mom’s face already printed in. I know it’s cliché, but it’s the truth. My dear mother, who raised two children while working several jobs and battling a disease that had her in the operating room once a month. Nothing ever did manage to stop my mom from living, she once worked 12 hours cooking in summer heat with a week-old procedure of which she still had every stitch to prove. Like all moms, mine would die for us, but the biggest blessing I’ve ever received is that my mom fought life’s toughest battles to live another day with us, even when she was told she didn’t have even another hour. More than 50 surgeries and two international moves across the world, we get to celebrate yet another year of us four. There’s nothing better than that.

The world seemed to stop in its tracks every time my grandad, Lorenzo Montejano, opened his mouth. Always a hard worker and a dreamer, he moved to Brazil without speaking any Portuguese and worked for years on end until an accident took one of his legs away. Although he was wheelchair bound till his last days, nothing ever cut his wings as he was always present in our lives. I often wonder what he would say to me if he were still here for even an hour, what he would sound like. He raised two of the most important people in my life, my mother and my brother, and every time I see their faces or watch their smiles, I immediately remember him.

All this to say that not once did life ever stop them from treating everyone with absolute kindness, even on their worst days. One thing is for certain: they never wanted anyone’s pity; all they wanted was a world that was easier on everyone.